Clique sobre a revista para folhear
Receba nosso boletim
Busca
Enviar por E-mail
Comente
Imprimir
Imprimir
 
Compartilhe:
 
SUS na prática: Nova PNAB prioriza Saúde da Família e reconhece estratégias de organização da AB nos territórios
Foto: Divulgação
Foi publicada no Diário Oficial da União do dia 22 de setembro a portaria que aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes para a organização da Atenção Básica, no âmbito do SUS.
 
O novo texto tem na Saúde da Família sua estratégia prioritária para expansão e consolidação da atenção básica, contudo reconhece outras estratégias de organização da atenção básica nos territórios, que devem seguir os princípios, fundamentos e diretrizes da atenção básica e do SUS configurando um processo progressivo e singular que considera e inclui as especificidades locoregionais, ressaltando a  dinamicidade do território e a existências de populações específicas, itinerantes e dispersas, que também são de responsabilidade da equipe enquanto estiverem no território de responsabilidade, em consonância com a política de promoção da equidade em saúde.
 
A proposta amplia o número de equipes aptas a receber recursos e valoriza a atuação dos agentes comunitários de saúde e de endemias. Outra novidade que vai facilitar a contratação de profissionais de saúde na Atenção Básica é a flexibilização da carga-horária. Além disso, todas as Unidades Básicas de Saúde passarão a oferecer um conjunto de serviços essenciais para a saúde da população.
 
O SUS na prática
 
Esforço diário e amor pelo trabalho descrevem os profissionais de saúde que dedicam suas vidas a cuidar de outras vidas
 
Trabalhar no SUS é exercer minha profissão na essência, é cuidar de quem mais precisa”, afirmou a médica Sharon Alves, que atende diariamente cerca de 30 pacientes em Primavera do Leste, no Mato Grosso. O odontólogo Franklin Regazzone, de Campo Alegre, no interior de Alagoas, contou que, assim como Sharon, atender a comunidade mais carente é o que faz dele um profissional realizado. “Tive a oportunidade de conhecer o SUS ainda na faculdade, quando o professor me levou para um dia de trabalho na rede pública. Ele, na verdade, não estava apenas me apresentando o SUS, mas sim abrindo o meu horizonte, me mostrando a realidade do meu país e deixando claro a importância do meu trabalho nesse lugar”.
 
A enfermeira de Beneditinos, no Piauí, Andreia Abreu, considera que o SUS é, sem dúvidas, a maior conquista da população brasileira. “Grande parte dos pacientes aqui é extremamente pobre. Oferecer um bom atendimento a essas pessoas é como proporcionar dignidade a elas”. Há 15 anos, Doralice trabalha como agente comunitária de saúde em Santo André – SP. Para ela, ser ACS é um aprendizado diário. “Hoje sou parte responsável por proporcionar saúde a 185 famílias da minha comunidade. Visito essas pessoas constantemente e elas confiam em mim. Como troca por essa confiança, dou sempre o meu melhor”.
 
Mas afinal, o que Sharon, Franklin, Andreia e Doralice têm em comum? Eles fazem parte dos 1.619.337 profissionais que compõem as 40.510 equipes multiprofissionais de Atenção Básica na Estratégia Saúde da Família (ESF) espalhadas por todo o país. Essas quatro profissões: médico, enfermeiro, agente comunitário de saúde e odontólogo compõem a equipe básica da ESF. Além dessas, outras 11 profissões (nutricionistas, fisioterapeutas, educadores físicos, biólogos, psicólogos, fonoaudiólogos, assistentes sociais, farmacêuticos, terapeutas ocupacionais, médicos veterinários e biomédicos) são reconhecidas oficialmente como pertencentes à área da Saúde e podem formar as variadas equipes de apoio à atenção básica, como por exemplo, o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF), Núcleo de Assistência Psicossocial (NAPS), Rede de Urgência e Emergência, Atenção Especializada (Ambulatorial e Hospitalar), equipes de Atenção Domiciliar, entre outras.
 
 
Integralidade e a garantia de saúde

O alicerce sob o qual se fundamenta a eficaz implantação da ESF é o atendimento integral. O princípio da integralidade é uma das bases do SUS, que consiste na compreensão do ser humano como um todo, ou seja: o sistema de saúde deve estar preparado para ouvir o usuário, entendê-lo inserido em seu contexto social e, a partir daí, atender às demandas e necessidades desta pessoa.
 
Conhecer a realidade das famílias; identificar os problemas de saúde e situação de risco; estabelecer vínculo com os usuários; coordenar e participar de grupos de educação em saúde; fazer o controle de doenças crônicas como hipertensão, diabetes e realizar visitas domiciliares são algumas das responsabilidades das equipes de Saúde da Família. De acordo com Andreia, enfermeira de Beneditinos, essa ampla lista de atividades é o grande diferencial do SUS. “Muitas vezes me deparo com pacientes que foram atendidos na rede particular que não foram orientados e acompanhados devidamente, é um trabalho superficial que se apoia no serviço público”.
 
Sharon, médica de Primavera do Leste, também destacou esse diferencial do SUS. “Quando vou a algum hospital particular, vejo que os atendimentos não são interligados, os médicos não se comunicam, cada um examina somente a parte que lhe ‘cabe’ e o paciente, na maioria das vezes, não é observado por inteiro. Se alguém sente dores no peito, vai ao cardiologista, dor de cabeça, ao neurologista e assim por diante. Diferente disso, a ideia do atendimento no SUS é fazer um mapeamento geral do paciente, o que, em minha opinião, é o modelo ideal”.
 
 
Além da amplitude de serviços, a integralidade também consiste na prática eficiente, coesa e completa de promoção da saúde em uma rede interligada, onde as ações devem ser multidisciplinares, interdisciplinares e até mesmo transdisciplinares. Em uma equipe interdisciplinar há possibilidade de troca de conhecimentos, técnicas e metodologia entre os profissionais. Por sua vez, a transdisciplinaridade diz respeito a uma compreensão que transcende o âmbito de cada disciplina e surge através da articulação que possibilita uma nova visão sobre o assunto. A tendência é a horizontalização nas relações de poder entre os profissionais de saúde.
 
A quebra da hierarquia faz com que o trabalho em equipe seja realizado de forma eficiente e fluida. De acordo com a médica Sharon, o “medicocentrismo” atrapalha a resolutividade dos atendimentos. “Quando comecei a trabalhar aqui, eu queria resolver tudo sozinha, mas agora confio deixar tranquilamente vários procedimentos na mão dos outros profissionais da equipe e tenho certeza que os pacientes serão assistidos devidamente. Fazemos reuniões periodicamente e alinhamos o trabalho deixando claro a importância do comprometimento de cada um na equipe e da diferença que um trabalho conjunto faz”.
 
A importância do cuidado

O cuidado em saúde é, por definição, “o tratar, o respeitar, o acolher”. Pontos primordiais nesse cuidado é o acolhimento e a confiança entre o usuário e equipe. Em sentido etimológico, confiança significa ter fé junto com alguém, ou seja, acreditar junto em alguma coisa. Na saúde, a confiança e o vínculo são essenciais. “O paciente não é mais uma ficha ou mais um número. A palavra chave é carinho”, comentou a médica de Mato Grosso. Segundo ela, conquistar a confiança e criar laços com o paciente/usuário é o que define todo o restante do tratamento. “O acolhimento e o atendimento humanizado são fatores importantes. Dar mais tempo para a consulta, conversar e conhecer melhor o paciente, saber sobre os hábitos e rotina, são atitudes que, por mais simples que pareçam, fazem toda diferença. Muitas vezes a pessoa acha estranho esse tipo de atendimento. Elas estão acostumadas a sentar à frente do médico, falar rapidamente sobre o problema e sair do consultório com receitas de medicamentos”.
 
O acolhimento é um processo que implica em responsabilização do trabalhador/equipe pelo usuário, desde a chegada até a saída, ouvindo sua queixa, considerando suas preocupações e angústias, fazendo uso de uma escuta qualificada que possibilite analisar a demanda. Segundo a enfermeira Andreia, acolher é se responsabilizar pelas pessoas que te procuram, e pelas que não procuram também. “É importante, e faz parte do acolhimento, passar a certeza para o paciente de que alguém se importa com ele, que ele foi ouvido e alguém vai tentar ajudá-lo”. Além disso, a autonomia e a auto responsabilização do usuário também são importantes no processo de tratamento. “É preciso que o paciente entenda que ele é responsável pela sua própria saúde e que apenas as prescrições médicas e recomendações dos profissionais não adiantarão sem o comprometimento do paciente”.
 
Uma forma de cuidado que se diferencia do modelo das unidades tradicionais de atenção básica é a assistência domiciliar. Com ela é possível estabelecer vínculos e aproximações com os usuários e suas famílias. O odontólogo Franklin, de Alagoas, faz parte da equipe do Programa Melhor em Casa (PMC) que atende no município de Campo Alegre. “O objetivo do Melhor em Casa é levar atendimento às pessoas com necessidade de reabilitação motora, idosos ou acamados. Vou até a casa do paciente com o equipo portátil para atendê-lo. Faço procedimentos como restaurações, extrações, periodontia, entre outros”. De acordo com ele, “a grande maioria dos dentistas preferem abrir um consultório e trabalhar no conforto de uma sala com ar condicionado, mas eu decidi ir além. É indescritível a sensação de ir até o paciente que não pode se locomover e tirar o desconforto que a dor de dente causa. Os pacientes da minha região são muito carentes, muitas pessoas chegaram a arrancar os dentes porque não tiveram acesso a um dentista. Trazer a autoestima de volta também é um fator importante nesse caso, é um resgate da cidadania por meio do acesso à saúde”.
 
 
Cuidar de quem cuida: a valorização do trabalhador

O trabalho em saúde impõe aos profissionais da área uma rotina carregada com alto grau de tensão que envolve toda a equipe. Queixas constantes, ansiedade, tristeza, dor, sofrimento, morte e longas jornadas de trabalho constituem o cotidiano da maioria desses profissionais. Sendo assim, cuidar de quem cuida é primordial. Há centenas de trabalhos feitos pelas secretarias municipais de saúde acerca desse tema. Ganharam destaque esse ano os trabalhos de Curitiba, Pelotas e Natal, vencedores do Prêmio InovaSUS, iniciativa do Ministério da Saúde que busca reconhecer, incentivar e premiar projetos e experiências inovadoras na Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde no âmbito do SUS.
 
Curitiba conquistou o primeiro lugar no prêmio com o projeto “Transformando as relações de trabalho para uma organização tipo cérebro”, realizado pela equipe do Programa Melhor em Casa. O secretário municipal de saúde de Curitiba, Cesar Titton explica que a metáfora usada com o cérebro consiste na forma como os assuntos passaram a ser discutidos. “Uma organização tipo cérebro está em constante processo de aprendizado. A forma de aprender tradicional, que é feita apenas detectando, corrigindo o erro e voltando a trabalhar com as normas estabelecidas, é modificada por uma percepção mais aguda, onde se olha a situação de forma profunda e com diferentes opiniões”.
 
 
De acordo com ele, esse processo se dá através da gestão participativa. “O profissional de saúde se sentir parte de um todo é essencial para o sucesso de uma gestão. Criamos a cultura de fazer reuniões de forma diferenciada, menos hierárquica, com outro formato de condução. São 70 profissionais envolvidos nesse projeto que, de certa forma, cada um deles sempre foi parte da gestão, porém agora eles têm oportunidade de interferir diretamente nas tomada de decisões”. O secretário afirma que, de forma já comprovada, a sensação de pertencimento melhorou a satisfação dos trabalhadores. “Quando eles se sentem ouvidos, contemplados e valorizados, o reflexo é nítido no dia a dia de trabalho”. Já a iniciativa da secretaria municipal de Pelotas apostou na mudança do ambiente de trabalho. A pergunta era: Para você, como seria a unidade básica de saúde ideal? O questionamento foi feito aos trabalhadores da unidade, que responderam de forma ampla, falando tanto sobre a cor das paredes, quanto do atendimento.
 
Segundo a secretária Arita Gilda, o projeto se baseia principalmente na cocriação de uma unidade básica de saúde idealizada. “Foi criado um novo conceito a partir da participação de todos os profissionais e da comunidade. Reformamos duas unidades, as cores, a decoração, tudo foi sugerido pelos profissionais”. Arita afirmou que “os resultados apare – ceram na qualidade do serviço. Um melhor ambiente de trabalho resulta no bem-estar do profissional”.
 
A inserção do profissional de saúde nas atividades da própria unidade foi a solução simples, porém eficiente, que a secretaria municipal de saúde de Natal encontrou para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. Segundo Marcelo Bessa, responsável pelo projeto, “Esses profissionais são parte da comunidade, então por que ficariam fora das ações de promoção à saúde? Criamos um projeto para que eles, de fato, fossem inseridos e integrados nas atividades, como caminhadas, palestras sobre alimentação, rodas de conversa, etc. É como se os próprios profissionais cuidassem uns dos outros”.
 
Capacitar é valorizar

Dentre as principais fragilidades, sobretudo no campo da gestão do trabalho, destacam-se as incipientes iniciativas de materialização de uma política de educação permanente em saúde voltada aos trabalhadores e gestores da área, conforme preconiza a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS), que necessita de fortalecimento por parte da gestão do SUS. Experiências mostram que municípios que investiram nesta estratégia conseguiram uma mudança nos processos de trabalho a partir de uma maior participação dos trabalhadores nas ações e serviços de saúde na Rede de Atenção.
 
A Educação Permanente em Saúde é uma proposta político-pedagógica que coloca o cotidiano do trabalho em constante análise, construindo espaços coletivos para a reflexão e avaliação. O objeto de transformação é o próprio profissional de saúde no processo de trabalho. Acreditando nisso, foi implantado em Londrina um projeto que visa estreitar a relação com os trabalhadores para qualificá-los. De acordo com a autora da experiência, Simone Rodrigues, o projeto, além de promover a educação permanente e continuada, também estimula a construção do trabalho em rede. “Somos responsáveis por 54 Unidades Básicas de Saúde e como estratégia apostamos em um ‘movimento em onda’, capacitando profissionais na Diretoria de Atenção Primária à Saúde (DAPS) da Secretaria Municipal de Londrina, para que eles, como facilitadores, pudessem levar a informação até a ponta”.
 
 
Segundo ela, as oficinas realizadas por esses facilitadores nas unidades abordam variados temas, tanto teóricos como técnicos. “Começamos, por exemplo, com uma oficina sobre o que é o cuidado e qual é a forma ideal de realizá-lo. Em 2015 foram realizadas 54 oficinas para abordagem do ‘Processo de Trabalho na Atenção Primária com Enfoque no Cuidado’, com envolvimento de aproximadamente 1700 trabalhadores das UBS atuantes na assistência ao usuário”. Ao final de cada oficina, foram produzidos pelos trabalhadores depoimentos com fatores que os distanciavam da assistência integral ao usuário. “Isso vai, posteriormente, servir como disparadores para novas oficinas. As avaliações estão sendo positivas. O papel da gestão é apoiar, conduzir e capacitar os profissio – nais, e acredito que uma forma eficiente de realizar tudo isso é se aproximar e dar voz aos trabalhadores”.
 
11/10/2017
Fonte: CONASEMS
Total de comentários: 0 0 comentário(s) - Clique aqui e seja o primeiro a comentar
 
Confira também:
-
Semana Nacional de Combate ao Aedes aegypti será de 23 a 27 de outubro
-
Inscrições abertas para o Curso EAD de Saúde Bucal para pessoas idosas até o dia 25 de outubro
-
Resolução nº 461/17 reconhece o atestado de conclusão de edificação da UPA do município de Capão da Canoa
-
Resolução nº 462/17 reconhece a Ordem de Início de Serviço de reforma da UBS Centro do município de Arvorezinha
-
Resolução nº 468/17 habilita os leitos integrais em saúde mental, incentivados pelo MS e pela SES/RS, nos Serviços Hospitalares de Referência para Atenção Integral em Saúde Mental em 10 municípios do RS
 

   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
 
Galeria de fotos