Em Alegrete, Agentes Comunitários de Saúde usam teatro para informar a comunidade
Foto: Divulgação/PMA

Há 15 anos, os Agentes Comunitários de Saúde (ACSs) de Alegrete, na Fronteira-Oeste do Estado, mantêm o grupo Agentes em Ação, utilizando o teatro como forma de promover a saúde no município. O trabalho é realizado na comunidade, levando, por meio de atividades lúdicas, aprendizado e conscientização em assuntos como higiene, solidariedade, humanização e saúde mental. O projeto foi um dos classificados para apresentação na 4ª Mostra Nacional de Atenção Básica, realizada de 12 a 15 de março em Brasília (DF).

As peças teatrais criadas pelos primeiros agentes, ainda em 1999, são apresentadas pelo grupo atual, formado pelos 29 ACSs. Ao longo do tempo, foram realizadas adaptações para manter o trabalho sempre contemporâneo e atualizado com o momento sociocultural vivido pelas comunidades. Conforme explica a secretária da Saúde, Maria do Horto Salbego, o grupo vem passando por renovações nos últimos dois anos, após a realização de concursos públicos. “Conseguimos neste período recente,com o apoio da gestão, qualificar essas atividades lúdicas realizadas pelos agentes, garantindo a aquisição de figurino e acessórios como forma de facilitar e qualificar o trabalho”, diz.

A coordenadora de Atenção Básica de Alegrete, Jaqueline Albanio, explica que, à medida que ingressam novos agentes no serviço, eles são capacitados para participar do grupo, mantendo assim a continuidade do projeto. “Não é obrigatório a adesão, mas eles são convidados e motivados para tal e sempre querem fazer parte do programa.” A primeira peça criada foi a “Higiene e Saúde”. Com foco na comunidade escolar, trata de infestação de sarna e piolho, buscando a sensibilização das famílias quanto à importância de cuidar a saúde a partir do cuidado pessoal, das relações familiares, comunitárias e com o meio ambiente. “Sempre que é percebido um foco de infestação de piolhos em determinada escola, o grupo programa uma apresentação”, explica Jaqueline que diz haver grande receptividade tanto por parte dos pais, que se envolvem na produção de um xampu caseiro à base de ervas, quanto das crianças.

Na peça “O Natal do Senhor da Vila”, o grupo trata das relações familiares e comunitárias, destacando a importância da solidariedade, da participação social e da amizade. A encenação é realizada nas festas de final de ano promovidas pelas comunidades.

Dentro do trabalho que o município desenvolve em Saúde Mental, como a Parada Gaúcha do Orgulho Louco, um dos eventos mais importantes sobre o tema no Estado, que ocorre desde 2011 na busca de cidadania e respeito aos portadores de transtornos psíquicos, o grupo Agentes em Ação apresentou a montagem “Penachos da Vida”, abordando questões como o preconceito e a aceitação do tratamento por parte da família e do paciente. “Conforme os assuntos vão sendo tratados de forma lúdica, o aprendizado é despertado. As pessoas passam a entender a importância do autocuidado, da solidariedade humana”, explica.Também há a valorização não apenas da saúde física, mas da mental “Pode dar a impressão de não ser saúde, mas a alegria traz ganhos à qualidade de vida.” Há, ainda, a peça “Dr. Alofrado”, que retrata a sobrecarga de problemas absorvida pelos trabalhadores da saúde.

Para dar vida ao projeto, os ACSs se tornam atores versáteis, estando aptos para interpretar mais de um papel, além de trabalharem como costureiros, pintores, músicos, escritores, marceneiros e maquiadores. Usando a criatividade, o material reciclável se torna fantasia e cenário, possibilitando a execução das atividades com poucos recursos financeiros. A coordenadora conta que para 2014 está se buscando recursos para compra de equipamentos como microfones, que permitirão sejam feitas apresentações em espaços mais amplos e atingindo, cada vez mais, um número maior de pessoas. As peças são exibidas em escolas e eventos públicos da comunidade como a Parada do Orgulho Louco, no centro da cidade, festas de fim de ano das unidades de saúde.

A secretária Maria do Horto ressalta que essa prática interfere de forma positiva, diretamente na gestão do trabalho. Ela explica que o trabalhador desenvolve um comprometimento com o fazer, contribuindo para a organização dos processos. “Os agentes passam a entender melhor a sua importância enquanto trabalhadores da promoção em saúde e, consequentemente, qualificam a vida do usuário”, conta.

Mas, antes disso, ela ressalta o maior resultado da iniciativa, que é o de sensibilizar a comunidade para estar mais próxima às ações desenvolvidas pela secretaria. “Notamos que isso tem mudado o modo como as pessoas enxergam a prevenção e até a cura das doenças”, destaca. “Conseguimos atrair a população para as unidades de saúde não só no momento em que precisam, mas para ver teatro, confraternizar e dialogar.” Segundo ela, a participação de famílias tem um caráter pedagógico muito interessante no sentido do cuidado.

Apesar de não haver dados sobre o impacto das informações, Jaqueline conta que a mudança de comportamento e atitudes representadas pelo acolhimento afetivo aos profissionais, aplausos e identificação com os atores demonstra o sucesso da iniciativa ao longo dos anos. Ela acredita que a informação se torna mais efetiva quando passada em momentos de descontração, em vez de ser trabalhada com imposição, apenas dizendo o que se deve ou não fazer. Assim, a leitura da realidade, permitida pelas peças teatrais desen volvidas pelos ACSs de Alegrete, acaba por ser incorporada no saber coletivo. “Essa iniciativa é promoção em saúde que vai além da rotina de trabalho do SUS,”, afirma. “Só é possível auxiliar nessa promoção quando se faz com que o usuário reflita sobre o conhecimento que lhe foi passado.” Desta forma, as peças ultrapassam as fronteiras do momento de sua apresentação. Os espectadores acabam por comentar com a família e os amigos, fomentando as discussões e ref letindo sobre os ensinamentos passados de forma leve e engraçada pela equipe do Agentes em Ação.

Fonte: Revista COSEMS/RS 7ª edição